Herman, um cara simpático mas...de poucas palavras.


B.O Boletim de Ocorrências.
Caso de hoje:


Constantes diálogos em vão. Estava lendo seu jornal e tomando sua cerveja estupidamente quente, devaneando no meio de notícias atrozes e cavernosas do cotidiano. O jornal era uma espécie sangrenta e sensacionalista de 50 centavos. Enfim, uma leitura sem pretensão de adaptação cultural ou cardíaca, já que pelo menos 70% dos dizeres eram escabrosamente profanos e recheados de coagulados mexilhões da curiosidade humana. Resumindo, ou alongando, não levavam a nada. Estava mesmo?.. Ah, sim! Herman numa boa, em seu universo paralelo, sendo um homem responsável, trabalhador e digno com seus compromissos. Casado com um ser humano do sexo feminino que vivia intervindo em seus momentos de paz aguda. Isso sempre acontecia, sempre. Herman possuía alguns empregos de escalas graduadas aleatórias. De manhã, mais precisamente 7 da matina, trabalhava de vendedor numa loja de bonés do bairro ............., Xinéz.
Almoçava sempre um gato quente prensado, com geléia de ricota ao molho de aspargos. Após o almoço, realizado em baixo de uma árvore do Vale do Anhangabaú, tirava um cochilo na grama macia de algo que parecia ser uma praça, mas na verdade era um cemitério de vídeo cassete. Depois do merecido e pontual descanso, 8 minutos de duração em média, caminhava para seu segundo emprego. Nesta outra profissão exercia função bastante árdua e significativa para a sociedade. Animador de lojas infantis. Usava fantasia de urso com um boné da mesma loja que trabalhava de manhã. Os socos, chutes e flashes esgotavam Herman por inteiro, e, findo o compromisso de trabalhador, depois de 3 conduções, chegava em casa estafado, chateado "psicomentalestruturalmente". Lá era recebido com cobranças e questões insignificantes para o momento. Sua mulher chamada Lutécia indagava muitas vezes sobre as condições do matrimônio entre ambos. Herman, esgotado e ainda de uniforme fazia sua parte dedicando alguns instantes (cronometrados exatamente) a atividade de discutir a relação. Os diálogos eram mais monólogos de Lutécia, e ele sempre pretendia deixar tudo para ser resolvido depois, embora suas tentativas nesses sentidos fossem sempre nulas. Quero dizer... anuladas. Os tempos passaram e Hermam, ainda se dedicando as atividades comuns, teve um estalo de pensamento durante um tapa na boca que recebera de uma criança insatisfeita com o fato de um urso falar. Para essa criança ursos só escutavam, ursos não falavam. Naquele momento Herman idealizou ficar calado mesmo, para tudo, e, justificar seu silêncio com uma doença causada pela fadiga vocal que seus dois trabalhos o expunham. Pensou com ele mesmo: Isso Herman, faça isso hoje mesmo!... No dia da magnífica idéia, ao chegar em casa, escreveu num papel sobre seu problema e mostrou a sua esposa. Aflita com o caso preferiu deixar a discussão corriqueira para o dia seguinte. Caíram folhas, a neve chegou, o sol brilhou com muita intensidade. O tempo não parava e a satisfação de Herman com seu próprio silêncio um dia começou a findar. Lutécia, mulher sábia e astuta que cuidava da casa e assistia programas da tarde na tv aberta, indagou ao pobre Herman, certa vez: -Querido, se sua voz não volta... Matriculei você num curso de libras, assim poderemos conversar e viver normalmente. Hermam, ao escutar as palavras da esposa sentiu seus olhos avermelharem e uma dor no peito. Parte dele aceitou a notícia, parte dele teve certeza de ser impossível. E então que o homem foi mesmo matriculado no curso, no horário da madrugada, especificamente das duas às quatro e meia da manhã. Um mês após o início do magnífico curso de diálogos no mute, começou a conversar com sua esposa em libras. Mais alguns dias se passaram. Não havia mais como sustentar a situação e Herman queria dar um basta nisso tudo. Foi quando uma Senhora histérica, mãe de uma pessoa de apenas 26 anos de idade, o repreendeu com um apertão no braço, alegando que estava com olhar suspeito para cima de sua filhinha. Em virtude desse absurdo, Herman achou que teria um ataque ali mesmo, mas, não foi o que aconteceu. Chegando em casa, seu espírito já estava radiante pois havia descoberto novidade. Sua esposa o recebeu com beijos, abraços e libras, mas ele se afastou um instante, pegou uma canetinha - dessas feitas para escrever em cd, tipo permanente - e rabiscou na parede que devido a uma tendinite repentina, não poderia mais usar libras para se comunicar. E assim, sem poder falar ou movimentar os membros superiores, Herman não sabia mais o que esperar além de alegria. Foi afastado dos trabalhos e em casa ficou rodeado de mimos, cervejas no canudo... Estava de fato no paraíso pleno. Não tardou então para que chegasse o dia em que Lutécia marcaria um médico para o marido. Assim foi feito e lá foram os dois ao hospital no dia da consulta. Lutécia empurrando e Herman dentro do carrinho de feira. Quando o médico analisou Herman, notou que o homem fingia seus males, entretanto, não o entregou. O doutor viu em seus olhos um apelo desesperado de socorro. Receitou ao "doente" fisioterapia no hospital das clínicas. Imediatamente começou o tratamento, e, como não estava doente de fato, os resultados mostraram-se positivos muito logo. Desesperado para não ser desmascarado e não perder a melhora que havia conquistado em sua vida enquanto mudo de voz e mãos, resolveu, como medida drástica, amputar seus braços e pernas. E fez. Em seguida adaptou seus membros com um amigo marceneiro. Este executou uma obra prima em madeira, tamanha sua maestria e tamanho seu afinco com o serviço. Herman ganhou braços e pernas muito precisos. Ao final desse longo dia de arranca e põe, Heman retornou a sua casa e mostrou a esposa o que haviam feito as sessões de fisioterapia com seu corpo. A mulher, horrorizada com tamanha bestialidade macabra, abandonou o lar correndo, deixando o amado marido caído na sala com seus novos membros. Herman entrou em profunda depressão e ao continuar caído no chão, sofreu um ataque repentino de cupins. Um belo final feliz para alguns!

Revelarei aqui a imagem atual de Herman.
Quem já veio na loja viu.
Quem não veio é porque preferiu passar o ano novo com camiseta de piada.
Boas festas e até ano que vem.

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